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Conheça a Deep Web, o lado obscuro e ilegal da internet

Mayra Cavalcanti

Mayra Cavalcanti

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Publicado em 02/10/2013 às 15:58

A internet que poucos conhecem (Divulgação)
A internet que poucos conhecem (Divulgação)

A internet não é apenas esse mar calmo que conhecemos. Nas profundezas deste meio de comunicação existem sites capazes de deixar qualquer um estarrecido. Conheça a Deep Web.

Por Allan Cancian e Raysa Calegari*

Tem gente que acha que conhece a internet, que sabe navegar em todos os tipos de sites e que se sente seguro acessando qualquer www disponível. Mas tem muita gente que não sabe que a internet que utilizamos todos os dias é apenas a ponta do iceberg, chamada de Superfície.

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A deep web, nome utilizado para todos os sites que não são indexados pelos mecanismos de busca padrão (Google, Bing, Yahoo!), é o outro lado da internet. Mais oculta e maior que a web de superfície, nela existem todos os tipos de conteúdo que nem imaginamos. Drogas, pedofilia, zoofilia, matadores de aluguel, armas, entre diversos outros tipos de informação que muita gente do “submundo” acessa.

Para fazer esta matéria, nos comprometemos a vasculhar alguns dos conteúdos que encontrávamos em páginas https e que redirecionavam para a web invisível, sempre usando o navegador Tor, responsável por deixar o IP e dados ocultados para todos os sites que entrávamos. Após tudo isso ser feito e tomando todos os devidos cuidados para não sermos rastreados (governos internacionais investigam todos os dias a deep web em busca de criminosos), entramos no submundo. Bem-vindo à Deep Web

O primeiro site que acessamos (e talvez o que mais as pessoas acessam na deep web) foi o Silk Road, fechado nesta terça (2) e especializado em compra e venda de qualquer coisa em qualquer lugar do mundo. Nele a pessoa pode tranquilamente encomendar drogas, armas, remédios e quaisquer outras coisas, bastando apenas pagar por elas com Bitcoins – o dinheiro virtual usado no site – e enviar seus dados de entrega para o vendedor. Obviamente não ultrapassamos esse limite e também não recomendamos.

Após descobrir a enorme facilidade em conseguir coisas ilegais, resolvemos pesquisar mais sites. Sem muito esforço, chegamos a uma espécie de “Wikipedia do mal” que reúne grandes informações sobre o mundo abaixo da superfície. Daí em diante, deparamos com páginas que linkam os sites mais importantes da rede. Wikis, blogs, fóruns e sites são utilizados por novos e velhos integrantes para se localizarem na rede, trocarem experiência e usar os links disponíveis para guiá-los a suas páginas finais.

Clicando em alguns links ali disponíveis, percebemos algo semelhante à internet normal: a capacidade de organizar coisas desorganizáveis! Lá dentro, o usuário se depara com um mundo não muito diferente do que o de acima da superfície da internet, porém muito mais sombrio e com funcionalidades que podem assustar qualquer pessoa. Blogueiros do submundo se conectam e trocam indicações de postagens, inúmeros fóruns existem para tirar dúvidas de alguns e criar um diálogo entre cada ponto da rede, serviços de chat criptografados, buscadores especializados em encontrar conteúdo da web invisível, etc. Tudo bem semelhante ao que já conhecemos, mas o iceberg da internet mundial consegue ir muito mais além disso.

Homepage do Silk Road quando estava no ar: mais de US$ 1 bi movimentados (Reprodução)
Homepage do Silk Road quando estava no ar: mais de US$ 1 bi movimentados (Reprodução)

O lado obscuro da internet

Tudo o que você quiser está lá: links para baixar livros, filmes, músicas e quaisquer outros arquivos de graça, informações confidenciais sobre pessoas e países (o WikiLeaks surgiu na deep web e apenas depois emergiu para a internet comum), humor que faz até o 4chan parecer só mais um site engraçado. Tem muita coisa lá, incluindo tópicos que deixariam um usuário normal estarrecido.

Uma pessoa mal intencionada consegue comprar e vender cartões de créditos roubados, adquirir variados tipos de drogas dos mais diversos países do mundo, assistir vídeos e ver fotos de pedofilia, zoofilia, necrofilia entre outras modalidades sexuais não encontradas facilmente na superfície.

Também é possível contratar matadores de aluguel, espiões para qualquer tipo de assunto, hackers para todo tipo de serviço, tutoriais para criar sua própria página obscura na deep web, entre outros. Também existem páginas dedicadas a religião, imagens e vídeos de terror, redes sociais e conversas online.

Os links estão por todo canto, mas nem todos os sites são fáceis de serem acessados. Como forma de deixar o serviço em pleno funcionamento e evitar que a polícia o encontre, muitos sites mudam sua URL e migram para outros servidores. Isso acaba bloqueando os usuários “noobs” (gíria da internet que diz respeito a pessoas que não entendem muito do que estão fazendo) e possíveis governos, mas para quem está imerso há muito tempo e conhece os contatos certos, isso não é nenhum problema.

Mesmo a deep web possui suas divisões. Não são todos os usuários que podem ou conseguem acessar todas as informações disponíveis na imensa rede, já que é necessário conhecimentos avançados em computação para se chegar até o mais profundo dos temas. Sites vistos por governos como terrivelmente perigosos e criminosos recorrerm a diversas artimanhas para serem encontrados e acessados, diminuindo o número de usuários e aglutinando quem realmente precisa entrar.

A Wikipedia do mal (Divulgação)
A Wikipedia do mal (Divulgação)

Cebolas

Após dar umas vasculhadas nos sites que entravam, concluímos algumas coisas. Graças ao fato de o navegador Tor transformar o IP em outro aleatório, o carregamento das páginas é bem lento e por muitas vezes acaba não completando. Só neste ponto muitas pessoas desistiriam de continuar a desvendar a deep web.


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Um outro fato é o óbvio: somos noobs quando o assunto é a internet oculta. Não conseguimos acessar nem 1% da quantidade de sites existentes ali, já que tudo é embaixo dos panos, camadas sobre camadas que lembram uma cebola. E é exatamente Cebola (onion) o símbolo mais forte da deep web, presente em todas as urls de sites que entramos.

Nas wikis que olhamos, vimos links para qualquer tipo de conteúdo. Existem sites de apelo sexual pouco ortodoxos para a maioria de nós, apenas lendo o texto do link. Encontramos links de sites de terror psicológico intenso, fotos artísticas ou não, compra e venda de sites de internet, de órgãos humanos, de crianças e adultos, mas não chegamos a entrar nos sites com esses conteúdos.

Caso sempre tenha se perguntado onde ficava hospedada a internet profunda, como pessoas conseguiam ver imagens estarrecedoras, onde comprar drogas e como organizar o mercado paralelo, agora você sabe. Não recomendamos entrar se você não quer ter traumas ou pensar que a humanidade está perdida. Caso entre, vá por sua conta em risco, mas seja esperto!

Vírus que roubam seus dados e capturam seu IP existem na deep web, apenas esperando você clicar para infectar o seu computador. E outra: qualquer erro bobo cometido por você pode te deixar violável. Parece brincadeira, mas não é: o FBI e os governos estão doidos pra pegar quem acessa os sites pesados da deep web.

Tor, o navegador da deep web (Reprodução)
Tor, o navegador da deep web (Reprodução)

Segurança

Se você, como a maior parte dos mortais, não é um grande programador, nem conhece a fundo os segredos de um sistema operacional é bom tomar algumas precauções antes de se aventurar. A princípio o grande perigo de entrar na deep web é o próprio Windows. Não porque o sistema seja ruim ou que tenha erros, mas, principalmente, porque a maior parte dos vírus e malwares são programados para esse sistema, hegemônica da computação mundial.

Os próprios desenvolvedores do navegador Tor anunciaram este ano, em comunicado oficial, que os usuários não devem utilizar o sistema da Microsoft para navegar na deep web. O motivo é que uma falha de JavaScript abria espaço para identificação do usuário e hostname para outros servidores. Isso permitiria, inclusive, que a máquina fosse controlada remotamente por outro operador.

Mas calma! Se você quiser se aventurar pelos cantos mais profundos da rede não precisa reinstalar todo o sistema operacional de seu computador. Existe o Tails OS, uma distribuição do sistema operacional Linux que já vem preparado para a navegação anônima na rede. Você deve gravar o Tails em um CD (de preferência não regravável) e rodar o Tor a partir dele. O Tails não permite que você deixe rastros de suas ações na máquina, não salva nada em disco e isso te protege muito mais.

Entretanto, é claro que nem o Tails, nem o Tor, podem te proteger de você mesmo. Sair clicando em qualquer lugar e ter senhas fracas não vão te ajudar caso alguém experiente e malicioso queira desvendar seus hábitos na rede.
Conteúdo

Falamos até o momento do grande mistério que é a deep web, que lá se faz o que há de mais obscuro, feio, proibido, etc. Mas nem tudo são trevas. Muito do que existe no fundo desse iceberg são conteúdos construtivos e difíceis de serem encontrados na surface.

O caso mais representativo sobre esse ponto da deep web da atualidade foi dos Wikileaks e o próprio grupo Anonymous, que, em 2011, revelou a identidade de uma rede de pedofilia em diferentes países. Esses casos foram possíveis justamente por que é lá que as quebras de sigilo começam.

Além disso, em lugares em que a liberdade de imprensa é inexistente ou, no mínimo fortemente vigiada, muitos jornalistas se correspondem com seus veículos através da segurança do anonimato proporcionada pela deep web. Em locais como China, Irã e Coreia do Norte o vazamento de informações seria impossível sem o anonimato. Diz-se que, inclusive, a primavera árabe não teria acontecido da mesma maneira não fosse o poder das profundezas.

Saindo um pouco do âmbito conspiratório, na DW também é possível encontrar material cultural muito mais interessante do que estamos acostumados nos lugares comuns da internet. Discos, livros, artigos científicos entre muitos outros de difícil acesso ou então altamente caros na superfície são espalhados pela deep web com muito mais propriedade.

Abaixo, deixamos para você uma lista com programas que você deve ter para conseguir acessar a internet profunda e também uma lista modesta para você dar seus primeiros passos por esse mundo curioso.

PARA ENTRAR NA DEEP WEB:
TOR (navegador): https://www.torproject.org/
TAILS (usar com o TOR): https://tails.boum.org/
AHMIA (espécie de site de busca de endereços .onion): https://ahmia.fi/search

* Da Universo Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), publicado sob uma licença Creative Commons 3.0.


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