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Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
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Considerações sobre o protesto ‘Fora Bolsonaro’ do dia 29 de maio. Por Ivan Moraes

José Matheus Santos

José Matheus Santos

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Publicado em 23/05/2021 às 12:24

Por Ivan Moraes*, vereador do Recife pelo PSOL, em artigo enviado ao Blog

Ninguém mais duvida que passaremos de 500 mil mortes no Brasil na maior pandemia de nossa história. Meio milhão de pessoas, pelo menos, que vão a óbito por conta de um vírus e de um governo que joga ao lado dele. Ninguém mais lembra o último dia em que morreram menos de mil pessoas apenas vitimadas pelo Covid-19. Mesmo assim, a Frente Povo sem Medo, a Frente Brasil Popular e a campanha Fora Bolsonaro estão convocando nacionalmente atos presenciais no próximo dia 29 de maio. No Recife, a caminhada está prevista para começar às 9h, com saída na Praça do Derby. Mas não é irresponsabilidade chamar o povo pra rua enquanto o sistema de saúde está praticamente colapsado? Não existe resposta simples para uma pergunta dessas. Vamos aos fatos.

A maior parte da nossa população já está nas ruas. Nos ônibus e metrôs lotados, nas filas dos bancos e nos outros ‘corres’ do dia-a-dia. Apesar de a ciência dizer o contrário, quase tudo permanece aberto, de igrejas à concessionárias de automóveis. Sem auxílio emergencial ou renda básica, quem tem menos grana precisa se virar, enquanto apenas uma pequeníssima elite pode dar-se ao luxo de cumprir o necessário isolamento social. Cada vez mais, parece que estamos vivendo num filme de ficção científica em que multidões arriscam a vida para garantir o bem estar de um punhado. Na mesma medida, o governo federal permanece boicotando a ciência e dificultando o acesso à vacinas para a maioria da população.

Meu entendimento é: a cada dia que passa no poder, bolsonaro mata mais gente. Simples assim. Nessa linha, tão importante quanto manter-se protegidas o máximo possível, cabe a todas as pessoas fazer o que for possível para apressar o fim desse governo. Como disse outra vez. Vale panelaço, carreata, grito na janela, post no grupo da família, faixa, camisa, carro de som. Vale o que você tiver à disposição, dentro do que você acredita que pode e deve fazer com o seu corpo.

Com quase um ano e meio de perrengue, eu imagino que cada pessoa que me lê já tem sua própria estratégia de convivência com a pandemia. Já decidiu em que ocasiões, para manter a sanidade mental, fortalecer laços afetivos ou cumprir compromissos essenciais à sua profissão, se permite sair de casa. Para uma visita ocasional a um parente, para uma reunião presencial ou mesmo uma fugidinha pra dar um mergulho de mar. Isso, insisto, levando-se em conta a minoria da população que de fato tem essa escolha. A maioria de nós, entenda, não tem.

Não tenho nenhuma dúvida sobre a necessidade do ato. Nunca, na história da humanidade, nenhum direito foi conquistado e nenhum regime autoritário foi derrubado sem que houvesse pessoas reunidas em grandes quantidades em espaços públicos e visíveis. Ponto. Resta, portanto, a cada pessoa a decisão sobre assumir ou não o risco de estar presente fisicamente neste momento. Sim, não somos negacionistas. Por mais que o protesto seja em espaço aberto. Por mais que as pessoas sejam orientadas a usar máscara. Por mais que caminhemos em fila indiana e com distanciamento, como a organização vem afirmando.

Falo por mim. Venho cumprindo o isolamento social que considero necessário. Fico em casa praticamente o tempo inteiro e todas as atividades oficiais da Câmara Municipal têm sido realizadas de forma virtual. Mas, como minhas funções de fiscalizar a Prefeitura são essenciais, às vezes preciso, sim, sair. Para uma mediação, para uma fiscalização, para conversar com um grupo que não tem acesso à internet. Nessas ocasiões, sei que corro risco e procuro reduzi-lo ao máximo com uma máscara boa, álcool em gel e todos os paranauês do nosso tempo. Procuro ir de bicicleta, evito tocar em pessoas, não abraço, não fico muito tempo em lugar fechado nem na companhia de muita gente. Chego em casa, deixo a roupa no quintal e lá mesmo tomo meu banho com muito sabão.

Nesse dia, farei o mesmo. E daqui pra lá vou me esforçar pra que mais pessoas aceitem estar comigo ao meu lado (sem tocar) nesse momento importante da nossa caminhada rumo à democracia. Você que tá vacinada, você que já pegou o vírus e escapou (mesmo sabendo que há risco de reinfecção). Você que nunca pôde se isolar, você que está se arriscando nos delivery da vida, que está dirigindo ônibus, que trabalha nos serviços essenciais, você que tá na linha de frente da saúde, da assistência social, da educação.

Mas, sem patrulhamento. Se você não se sentir à vontade para estar presente com o próprio corpo, isso não te faz uma pessoa menos séria, menos democrata, menos antibolsonarista. Meu máximo respeito às pessoas para quem sobram motivos e condições de permanecer em quarentena. Você pode contribuir repercutindo os atos nas suas redes, se manifestando da janela de casa ou do apartamento, fazendo campanhas até providenciando máscaras e álcool em gel para as pessoas que estarão no protesto. Para um ato político ter sucesso, é preciso mais do que gente na rua e você, em casa, pode ser fundamental. Só não morgue quem avalia que deve botar a cara no Sol.

*Vereador do Recife pelo PSOL


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